Carta do Gestor jan / fev 2025
EUA
Com relação aos juros básicos, em decisão unânime o Fomc manteve a taxa overnight entre 4,25% a.a. a 4,50% a.a.. O Fed optou pelo compasso de espera enquanto aguarda dados sobre o impacto das políticas do presidente Donald Trump, em especial a respeito da política tarifária.
A economia dos Estados Unidos deu os primeiros passos em 2025 com uma criação de 143.000 novos empregos em janeiro, conforme relatado pelo Bureau of Labor Statistics – BLS, abaixo das expectativas que previam adição de 170.000 postos de trabalho. Assim, a taxa de desemprego registrou uma queda de 4,1% para 4%. Apesar de predominar o clima severo, como o frio intenso e os incêndios florestais em Los Angeles, a BLS indicou que tais condições não tiveram efeito perceptível nos dados.
Adicionalmente, o relatório de janeiro trouxe uma revisitação das tendências do mercado de trabalho no ano anterior. Uma correção das estimativas revelou que 2024 teve 589.000 empregos a menos do que apontado anteriormente, com um total de pouco menos de 2 milhões de postos adicionados ao longo do ano, indicando para a média mensal de aproximadamente 166.000 empregos, similar ao observado em 2019, no entanto o resultado de dezembro/24 foi revisado para cima e a geração de vagas passou de 256 mil para 307 mil.
Desta forma, entendemos que o ciclo de corte de juros nos EUA deverá sofrer uma pausa ao longo de 2025, principalmente, devido aos dados sobre emprego somados às incertezas relativas à política tarifária do governo Trump. Nesse contexto, os números fomentaram a elevação dos rendimentos dos Treasuries. O rendimento da T-note de 2y subiu de 4,22% para 4,3%, enquanto a taxa da T-note de 10y avançou de 4,4% para 4,5%.
No cômputo, os mercados globais já haviam precificado a interrupção do corte de juros no EUA e não observamos impacto relevante nos países emergentes. A princípio, os primeiros alvos da nova política tarifária poderão favorecer as exportações brasileiras, não obstante as taxas de importações em reciprocidades, as quais o Brasil fica em clara desvantagem, poderão comprimir parcialmente os resultados da balança comercial.
Zona Euro
Os recentes dados econômicos na Zona Euro têm demandado uma atenção redobrada, sobretudo em face dos índices de inflação que excederam as expectativas e do enfraquecimento do euro devido ao aumento das tensões comerciais com os Estados Unidos. Em janeiro, a inflação anual da zona euro atingiu 2,5%, superando a previsão de permanência nos 2,4%, sendo este o nível mais alto desde julho de 2024. Entre os componentes da inflação, os serviços registraram uma taxa anual de 3,9%, embora abaixo dos 4% de dezembro. Os preços de alimentação, bebidas alcoólicas e tabaco subiram 2,3%, enquanto a energia apresentou um salto significativo de 1,8%, recuperando-se do marginal 0,1% do mês anterior.
Adicionalmente, a inflação subjacente permaneceu fixada em 2,7%, contrariando as estimativas de uma leve redução para 2,6%. Apesar dos dados inflacionários mais fortes, o Euro não conseguiu apresentar fortalecimento, sucumbindo às crescentes preocupações com as políticas tarifárias dos EUA, sendo que a moeda depreciou 1,2% frente ao dólar.
Os mercados acionários da Europa sentiram os efeitos das tensões comerciais, com o Euro STOXX 50 caindo 1,9% e o índice DAX da Alemanha recuando 2%. O setor automotivo sofreu o impacto mais severo, pressionado pela possibilidade de tarifas sobre automóveis europeus. A Volkswagen, a Mercedes-Benz e a BMW viram suas ações despencarem 6%, 4,9% e 4,5%, respectivamente, enquanto a Stellantis em Milão perdeu mais de 7%.
Por outro lado, a busca por segurança levou a um aumento na demanda por títulos soberanos, resultando em uma queda nos rendimentos. Os yield alemães recuaram oito pontos-base para 2,40%, enquanto os títulos OAT franceses caíram seis pontos-base para 3,15%.
China
As projeções indicam que o crescimento econômico da China desacelerará para 4,5% em 2025 e, possivelmente, ainda mais para 4,2% em 2026. Esta desaceleração ocorre após um crescimento estimado do PIB de 4,9% em 2024, que foi amplificado tanto por medidas de estímulo quanto por fortes exportações, próximo à meta do governo de cerca de 5%. Os dados, provenientes da mediana das previsões de 64 economistas, refletem um ambiente de incerteza frente às futuras tarifas americanas.
O retorno de Donald Trump à presidência dos EUA e suas propostas de aumento das tarifas sobre produtos chineses criam um desafio expressivo para o crescimento chinês este ano. Especialistas destacam que essas tarifas são a maior barreira ao crescimento da China, potencialmente afetando exportações, investimentos corporativos e consumo interno.
Apesar desse cenário desafiador, a economia chinesa apresentou sinais de melhora com um crescimento de 5,0% no quarto trimestre de 2024 em relação ao mesmo período do ano anterior. Este foi um avanço em relação aos 4,6% no terceiro trimestre e foi sustentado por uma série de medidas de apoio econômico, o que nos parece pouco sustentável.
As perspectivas para o setor imobiliário continuam a mostrar retração em 2025, mas observamos que o impacto no crescimento deverá ser menor quando comparado a períodos anteriores. De acordo com as previsões, o crescimento econômico no quarto trimestre foi de 1,6% trimestralmente, em comparação com 0,9% registrado entre julho e setembro.
A expectativa no mercado é de que o governo introduza novos estímulos ao longo de 2025, contudo o escopo e a magnitude desses incentivos podem depender bastante de como e quando Trump colocará em prática as anunciadas tarifas. É fundamental permanecer atento às ações do governo chinês e às políticas comerciais dos EUA.
Brasil
A Pesquisa Focus (10/2) divulgada pelo Bacen revela que o cenário econômico permanece desafiador. A economia brasileira enfrenta um panorama de inflação crescente. As projeções para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo – IPCA indicam um aumento para 5,58% ao fim deste ano, uma elevação em relação aos 5,51% da pesquisa anterior, representando a 17ª semana consecutiva de alta nas previsões. Para 2026, a projeção da inflação é de 4,30%, acima dos 4,28% previstos anteriormente. O Banco Central tem como meta (CMN) 3%, com uma margem de 1,5%.
As estimativas para o PIB também foram revisadas para baixo. Espera-se agora um crescimento de 2,03% em 2025, ligeiramente inferior aos 2,06% projetados na semana anterior. Para 2026, a expectativa é de um crescimento de 1,70%, em comparação aos 1,72% do levantamento anterior.
Em sua última reunião, o Copom aumentou a taxa Selic em 1 ponto percentual, elevando-a para 13,25% ao ano, com indicações de nova alta na mesma proporção em março. A mediana das expectativas para a Selic em 2025 é de 15,00%, enquanto para 2026 a projeção é de uma redução para 12,50%. O Banco Central destacou preocupações com a “desancoragem” das expectativas de inflação, o sobreaquecimento da atividade e as políticas econômicas impactando o câmbio como riscos críticos.
A economia brasileira ressente o impacto das medidas anunciadas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, incluindo tarifas de 25% sobre todas as importações de aço e alumínio. Isso tem potencial para fortalecer o dólar americano e prejudicar os ativos de economias emergentes. No levantamento Focus, as expectativas para a taxa de câmbio foram mantidas, estimando que o dólar encerrará 2025 e 2026 em R$ 6,00.
Estratégias de gestão
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Carteira de Renda Fixa
Permanecem as aquisições de títulos pós fixados, em razão do stress de mercado verificado, associado a Crise Fiscal e ao cenário internacional. As projeções de inflação acima da meta e a taxa de câmbio a R$ 5,77 (10/2), corroboram com a decisão pelos títulos pós fixados de curto prazo, com a duration abaixo de 4 anos.
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Carteira de Renda Variável
O caixa disponível, cuja função foi reduzir a exposição em bolsa, foi parcialmente aplicado em ações já pertencentes ao nosso portfólio, dado o forte desconto observado na bolsa brasileira (P/L médio 7,5 anos). No momento, as carteiras conservadora, moderada e arrojada mantêm alocações na ordem de 5%, 20% e 15% respectivamente, com resultados positivamente impactados pela alta de 4,39% (jan a 10/fev).
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Carteira internacional
Executamos a realocação prevista das carteiras de ações, reforçando as posições nos segmentos de e-commerce, sales e-commerce, inteligência artificial, semicondutores, banco de investimento e meios de pagamento do e-commerce e, complementarmente compraremos ações do setor de energia elétrica e venderemos as ações do segmento de petróleo e gás. As perspectivas para as ações nos EUA continuam favoráveis, em razão da robustez da economia até o momento.
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Conclusão
O cenário de elevada inflação no Brasil e ajustes nas projeções de crescimento exigem monitoramento contínuo e resiliência estratégica. Permanecemos comprometidos em analisar o impacto dessas políticas globais e locais sobre nossos portfólios, promovendo ajustes com vistas ao controle do risco.


