Carta do Gestor dez 2024 / jan 2025
Cenários e perspectivas
Panorama Econômico dos Estados Unidos
A economia dos Estados Unidos continuou a surpreender positivamente ao longo de 2024, com uma estimativa de crescimento real do PIB de 2,8%. Este vigor foi sustentado pelo forte consumo interno, apoiado por um mercado de trabalho robusto e o aumento da riqueza familiar. Esperamos que essa tendência positiva persista em 2025, embora com uma leve desaceleração, projetando um crescimento de 2,2%. Apesar disso, este crescimento ainda supera o potencial e o desempenho de seus principais pares entre as economias desenvolvidas.
A administração Trump introduz uma mistura de oportunidades e incertezas no cenário econômico. As promessas de cortes de impostos corporativos e planos de desregulação, especialmente nos setores energético e financeiro, têm o potencial de estimular investimentos e ganhos de produtividade a médio prazo. Contudo, existe o risco de políticas que possam impactar negativamente a oferta, reduzindo o crescimento e aumentando a inflação. Medidas como uma política imigratória mais rigorosa podem gerar escassez de mão-de-obra em setores de serviços menos qualificados, enquanto tarifas extensas podem afetar cadeias globais de suprimentos. Embora esses impactos econômicos devam ser graduais e cumulativos, eles tornam o ambiente incerto.
No âmbito da política monetária, esperamos que o Federal Reserve adote uma abordagem cautelosa, com previsão de apenas um corte de juros em 2025, encerrando o ano com uma taxa de 4,10%. O crescimento econômico resiliente, pressões inflacionárias residuais e as incertezas da agenda Trump devem levar a essa postura mais conservadora.
Cenário Econômico na Zona Euro
A Zona Euro enfrenta desafios conjunturais e estruturais. O crescimento econômico continua aquém do esperado, reflexo de fatores como baixa confiança do consumidor, instabilidade política em economias centrais e perda de competitividade industrial, especialmente na Alemanha. Custos de energia elevados, a guerra em curso envolvendo a Ucrânia, e falta de investimentos em inovação são fatores que contribuem para esses desafios.
A possibilidade de tarifas impostas pelos EUA sobre automóveis europeus pode ser um golpe adicional à indústria local. Ao mesmo tempo, a pressão para que os europeus aumentem os gastos militares no contexto da OTAN impõe desafios fiscais adicionais. Contudo, as eleições na Alemanha em fevereiro trazem alguma expectativa de mudança, especialmente se houver uma flexibilização das rígidas regras fiscais, potencialmente liberando investimentos em infraestrutura.
O Banco Central Europeu continua reduzindo juros, com previsão de cortes consecutivos de 25 pontos-base até a taxa neutra de 2% ao ano em meados de 2025. Cenários adversos, como uma desaceleração econômica acentuada ou choques externos, podem exigir cortes adicionais.
Perspectivas para a China
Na China, as políticas expansionistas recentes ajudaram a estabilizar o crescimento, mas possuem alcance limitado. O foco tem sido a mitigação de riscos financeiros em vez de estímulos robustos ao consumo interno. O mercado imobiliário mostra sinais de recuperação em grandes cidades, mas enfrenta desafios devido ao alto estoque em regiões menores.
Espera-se que o governo chinês responda de forma multifacetada a políticas tarifárias agressivas dos EUA, incluindo tarifas retaliatórias e estímulos monetários e fiscais. Uma depreciação controlada do yuan pode ocorrer para manter a competitividade das exportações, mas precisa ser conduzida cuidadosamente para evitar fuga de capitais e instabilidade financeira.
Uma mudança para estimular o consumo interno, através de maiores investimentos em saúde, educação e seguridade social, poderia reduzir a poupança precaucional das famílias e combater pressões deflacionárias. Contudo, o governo parece relutante em adotar reformas estruturais profundas a curto prazo.
Perspectiva Econômica do Brasil
A forte deterioração do risco fiscal no final de 2024 é o principal fator que moldará o cenário de 2025 no Brasil. O governo apresentou um pacote tímido de contenção de despesas em novembro de 2024, frustrando expectativas e exacerbando preocupações sobre o crescimento da dívida pública, que pode aumentar em quase 15 pontos percentuais do PIB no atual mandato presidencial, atingindo 86,1% do PIB em 2026.
A decisão de elevar a faixa de isenção do imposto de renda pessoa física aumentou a percepção de risco fiscal, dadas as incertezas sobre medidas compensatórias. A elevação do prêmio de risco fiscal tem pressionado o câmbio e desancorado expectativas inflacionárias, exigindo uma política monetária mais rígida. O Copom elevou a Selic em 100 pontos-base em sua última reunião de 2024 e prevê mais dois aumentos de mesma magnitude até março, com um piso da Selic em 14,25%.
Projeções de inflação indicam a necessidade de juros mais altos para alcançar a convergência inflacionária no horizonte de 6 trimestres. No entanto, acreditamos que o Copom pode estender esse horizonte, optando por altas mais moderadas dos juros até 15,25% em meados do ano, mantido por mais tempo. O balanço de riscos sugere uma Selic ainda mais alta, com projeção de inflação para 2025 de 5,5%.
O crescimento do PIB deve desacelerar para 1,5% em 2025, em contraste com o robusto avanço de 3,5% estimado para 2024. A política monetária restritiva e o aumento das taxas de juros de longo prazo devem impactar negativamente o crédito, consumo familiar e investimento. A erosão do poder de compra pela inflação adiciona pressão ao cenário, e a resposta do governo será crucial. Novos estímulos fiscais ou creditícios poderiam agravar as pressões inflacionárias e elevar o risco fiscal.
O mercado de renda fixa no Brasil passou por uma reviravolta em 2024. Iniciamos o ano com expectativa de continuidade na queda da Selic, mas o cenário mudou drasticamente. O Banco Central foi obrigado a reverter o corte e adotar uma política mais rígida para conter pressões inflacionárias. Para 2025, projetamos que a Selic continue subindo, atingindo 15,25% ao ano, o que implica mais um ano de juros elevados.
Neste cenário, títulos pós-fixados continuam a ser a melhor alternativa para investidores. Com base nas projeções de Selic e IPCA, esperamos um juro real ex-ante em torno de 8%, um patamar raramente observado e extremamente atrativo. Nas demais alternativas de renda fixa, identificamos taxas prefixadas em torno de 15% para prazos médios e juros reais acima de IPCA +7%, superando a taxa livre de risco CDI.
No entanto, o risco fiscal persistente, em um contexto de economia sobreaquecida, pode implicar juros reais mais elevados por um período prolongado. Mantemos uma posição neutra em renda fixa prefixada e atrelada à inflação. Iniciamos 2024 com um viés positivo para a renda variável no Brasil, considerando fatores como preços em patamares atrativos.
Estratégias de gestão
Carteira de Renda Fixa
Manutenção das aquisições de títulos pós fixados, em razão do stress verificado na curva de juros futura, com os contratos de DI Futuro com vencimento em 1/10/25 de 2025 sendo negociado a 14.9% a.a. (10/1). As projeções de inflação acima da meta e a taxa de cambio a R$ 6,11 (10/1), corroboram com a decisão pelos títulos pós fixados de curto prazo, com a duration abaixo de 5 anos.
Carteira de Renda Variável
Em dezembro (16/12), o Ibovespa apresentou o rompimento do seu suporte técnico aos 125.000 pts, o que foi determinante para reduzirmos a exposição a renda variável de todas as carteiras doméstica. O caixa (juros) foi fortalecido até o patamar de 25%, gerando menor absorção do movimento de queda. No momento (10/1) o Ibovespa encontra-se no patamar dos 119.000 pts. O caixa, aplicado em renda fixa a juros elevados, será utilizado em momento oportuno. As carteiras conservadoras não possuem exposição em bolsa, no momento, sendo que as carteiras moderadas e arrojadas mantêm alocações na ordem de 5% e 15% respectivamente.
Carteira internacional
Após um ano de forte alta (63%), a bolsa norte-americana, teve um ajuste técnico em jan/25 de -6%, natural do movimento de realização de lucros. Tendo como premissa a continuidade da tendencia de alta para a bolsa nos EUA, favorecida pela economia robusta e pelo fluxo internacional de recursos, a partir do dia 13/1 estaremos rebalanceado as carteiras no exterior. Essencialmente, vamos reforçar as posições nos segmentos de e-commerce, sales e-commerce, inteligência artificial, semicondutores, banco de investimento e meios de pagamento do e-commerce e, complementarmente compraremos ações do setor de energia elétrica e venderemos as ações do segmento de petróleo e gás.
Conclusão
Os agentes de mercado continuam sensíveis a condução temerária da Política Fiscal por parte do Governo. Nesse contexto os juros deverão permanecer elevados em 2025 e 2026, a inflação será impactada pela taxa de câmbio em patamares recordes, considerando que nossa economia possui forte dependência de insumos importados. Desta forma, a estratégia central será a captura dos juros altos, ao mesmo tempo, mantendo o rigor quanto a seleção dos ativos e à vigilância dos riscos associados.
Renan Silva
Gestor, CGA
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