Carta do Gestor nov/dez – 2024
Cenários e perspectivas
Cenário Econômico Internacional
EUA
Com a reeleição de Donald Trump, o governo dos EUA está preparado para implementar políticas que podem influenciar significativamente a economia global. As propostas incluem a elevação de tarifas comerciais e a ampliação de gastos fiscais, com um impacto projetado de até 6 trilhões de dólares em cortes de impostos ao longo de 10 anos. Espera-se que o crescimento econômico dos EUA atinja 2,7% em 2024, sustentado por um mercado de trabalho robusto e uma inflação moderada. O Federal Reserve projeta uma taxa terminal de juros entre 3,75% e 4,0% até o final de 2025, ajustando sua política monetária em resposta às condições econômicas.
China
A economia chinesa enfrenta uma desaceleração, com o crescimento do PIB projetado para 4,0% em 2025, uma redução em relação aos 5,0% estimados para 2024. O governo chinês anunciou estímulos fiscais significativos, incluindo o reconhecimento de RMB 10 trilhões em dívidas fora do balanço dos governos locais, visando reduzir os custos de financiamento em RMB 600 bilhões ao longo de cinco anos. A moeda chinesa, o CNY, é projetada para se depreciar para 7,40 por dólar até o final de 2025, refletindo as incertezas comerciais.
Europa
A economia europeia continua a enfrentar desafios significativos, com o Banco Central Europeu (BCE) projetando cortes adicionais nas taxas de juros, levando a uma taxa terminal de 2,0% em 2025. O crescimento do PIB na zona do euro é estimado em 0,8% para 2024, com uma leve redução para 0,7% em 2025, devido a impactos contínuos de incertezas comerciais e choques econômicos. O euro é projetado para se depreciar para 1,05 USD até o final de 2025, refletindo as condições financeiras globais. Em especial, a Alemanha, “carro chefe” da economia europeia, sofre com menor demanda por parte da China e pela elevação do custo da energia, devido a diversificação estratégica para a redução da dependência do gás e do petróleo russo.
América Latina: Repercussões das Políticas Monetárias dos EUA
As economias latino-americanas estão se ajustando às mudanças no cenário internacional. No México, o crescimento do PIB é projetado para 1,0% em 2025, com o Banco do México prevendo cortes graduais de 25 pontos base nas taxas de juros, alcançando uma taxa terminal de 9% até o final de 2025. Na Colômbia, a taxa de juros terminal foi revisada para 6,5%, enquanto o crescimento do PIB é mantido em 2,4% para 2025. No Chile e no Peru, as projeções de crescimento do PIB para 2024 foram revisadas para 2,2% e 2,9%, respectivamente, com ajustes nas políticas monetárias para enfrentar pressões inflacionárias.
Geopolítica
Com a queda do regime de Assad, surge a possibilidade de um grupo com histórico de ligação com o fundamentalismo islâmico assumir o poder na Síria. Isso levanta preocupações sobre como o novo governo abordará as minorias e questões religiosas, podendo replicar situações semelhantes às do Afeganistão sob o domínio do Talibã. A Síria tem sido um país central para a estabilidade regional, enfrentando crises e guerra civil, e novas disputas de poder podem intensificar a instabilidade, afetando o equilíbrio estratégico da área.
A Rússia e o Irã certamente enfrentarão desafios neste novo cenário. A Rússia, em particular, poderá ver sua capacidade de atuação reduzida, já que a Síria é sede de importantes bases militares russas. A perda de influência russa pode criar uma oportunidade para a Turquia aumentar sua presença e influência no Oriente Médio. Além disso, há uma previsão de que o presidente russo, Vladimir Putin, possa enfrentar um enfraquecimento de sua influência, o que poderia levá-lo a adotar posturas mais agressivas para reafirmar sua relevância geopolítica.
A transição política na Síria representa um ponto de inflexão para o Oriente Médio, com potenciais mudanças nos alinhamentos de poder e influências regionais. A observação atenta dos próximos desenvolvimentos será essencial para uma compreensão mais aprofundada das implicações dessas mudanças no contexto global. A resposta da Rússia, bem como o papel de outros atores regionais como a Turquia, será crucial na definição da nova configuração geopolítica da região.
Na prática, o Brasil encontra-se longe da zona de conflito e permanece no radar dos países do Oriente Médio quanto a demanda por segurança alimentar. O acirramento dos conflitos exerce pressão sobre os preços das commodities, o que favorece nas exportações e fortalece nossa balança comercial. É certo que, uma vez o Brasil sinalizando para o reequilíbrio fiscal, os fluxos financeiros globais poderão imigrar em busca dos juros altos e das empresas listadas na bolsa de valores descontadas.
Cenário Econômico Doméstico
O Brasil enfrenta um cenário econômico desafiador, onde a política monetária desempenha um papel crucial. O Banco Central do Brasil, em resposta às pressões inflacionárias, ajustou a taxa Selic para 11,75% ao ano e, as expectativas de mercado, apontam para a taxa de 14,0% ao longo de 2025. Essa decisão reflete a necessidade de conter a inflação, que foi revisada para 4,8% em 2024 e 5,0% em 2025. As pressões inflacionárias são impulsionadas principalmente pelos preços elevados das commodities, especialmente proteínas, e pela desvalorização cambial.
A economia brasileira está projetada para crescer 1,8% em 2025, uma revisão em relação à estimativa anterior de 2,0%. Essa desaceleração é atribuída a fatores como taxas de juros elevadas, menor impulso fiscal e revisão para baixo do crescimento global. No entanto, o mercado de trabalho permanece resiliente, com a taxa de desemprego projetada para se manter em 7,0% em 2025, refletindo uma força de trabalho estável e uma taxa de participação consistente.
O déficit em conta corrente do Brasil é projetado em US$ 58 bilhões para 2025, mantendo-se estável em relação ao ano anterior. Este déficit é explicado por uma maior saída de recursos na balança de serviços e uma deterioração da conta de rendas, influenciada por pagamentos de juros e remessas de lucros ao exterior. A taxa de câmbio, revisada para R$ 5,90 por dólar em 2024 e 2025, reflete as incertezas domésticas e globais, além da ampliação do diferencial de taxas de juros.
O cenário fiscal brasileiro continua desafiador, com a necessidade de ajustes significativos para cumprir o arcabouço fiscal vigente até 2026. A projeção de resultado primário para 2025 foi revisada para -0,7% do PIB, indicando uma deterioração fiscal. Para enfrentar esses desafios, é necessário um ajuste de despesas de pelo menos R$ 70 bilhões, incluindo medidas como a revisão de benefícios sociais e cortes de gastos obrigatórios. A implementação dessas medidas é crucial para a estabilidade da dívida pública, entretanto o o Governo enfrenta dificuldades para a aprovação do Pacote Fiscal tramitando o Congresso Nacional. O adiamento para a votação da urgência dos projetos do pacote de cortes de gastos na semana passada e a falta de definição dos relatores desses projetos adicionaram um novo elemento à situação: ao ser deixado de lado, o pacote começou a receber críticas tanto da oposição quanto do próprio PT, que questiona as regras mais rigorosas para o Benefício de Prestação Continuada (BPC).
O Brasil enfrenta um cenário econômico complexo, com desafios significativos em termos de inflação, crescimento econômico e sustentabilidade fiscal, o que justifica a elevação da taxa de câmbio para o patamar de R$ 6,05 (10/12) e o contrato de juros futuros DI1Z25 (vencimento em dez/25) a 14,32% a.a. (10/12).
Estratégia das Carteiras
Carteira de Renda Fixa
Em razão das projeções pessimistas quanto a inflação, o juro e a taxa de câmbio, permanecemos investindo em títulos pós fixados. No mesmo sentido, seguimos com a política de aquisições de títulos de crédito privado isentos de impostos e indexados ao IPC-A, devido às pressões inflacionárias adicionais. As intensas alocações em títulos pós fixados desde maio/24 têm surtido efeito positivo nas carteiras Income e Income CP.
Carteira de Renda Variável
Em novembro, o Ibovespa enfrentou um cenário adverso fechando em 128.115 pts. Desde que alcançou seu pico histórico de 137.469 pontos em agosto, o índice passou a sofrer uma pressão vendedora significativa. No fechamento de quinta-feira, dia 28/11, o Ibovespa registrou uma queda de 2,39%, terminando o dia aos 124.610 pontos. No acumulado de novembro, a baixa chegou a 3,93%, enquanto no acumulado do ano de 2024, as perdas atingiram 7,14%.
O movimento de queda recente foi impulsionado pela decepção do mercado com o pacote de corte de gastos anunciado pelo governo, juntamente com renúncias na arrecadação. Destaca-se a proposta de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, que contribuiu para o pessimismo dos investidores durante o mês.
Desta forma, reduzimos a exposição em bolsa, gerando um caixa na ordem 25% da carteira, reduzindo parcialmente a aderência ao Ibovespa, reforçando nossa preocupação com relação aos juros futuros. Nossa carteira permanece privilegiando os setores essências como, energia elétrica, saneamento, petróleo, minério, comunicação e serviços financeiros e empresas com forte estrutura de capital e ROICs elevados.
Carteira internacional
Em novembro de 2024, a eleição do republicano Donald Trump impulsionou um rali significativo nas bolsas de Nova York. Com uma vitória expressiva, tanto no colégio eleitoral quanto no voto popular, Trump é percebido como um líder pró-mercado. Suas propostas de desregulamentação de setores como o bancário, a flexibilização do escrutínio sobre grandes empresas de tecnologia e a intenção de cortar impostos animaram os investidores, provocando euforia nos mercados.
O índice Dow Jones, que reúne ações industriais, fechou em alta de 7,54%, marcando seu melhor desempenho mensal do ano. O S&P 500, que representa as 500 maiores empresas americanas, também registrou seu melhor mês do ano, com uma alta de 5,73%. O índice Nasdaq, que concentra empresas de tecnologia, subiu 6,21% e encerrou em 19.218 pontos. Esse desempenho foi superado apenas em maio, quando o Nasdaq havia subido 6,88%.
Nesse sentindo, as carteiras internacionais de renda variável performaram acima do esperado. Do lado da renda fixa, mesmo com menores rendimentos, explicados pela queda de juros, mantivemos as aplicações fundamentadas pelo rigoroso controle de crédito, reforçando a tese de preservação de capital no exterior.
Conclusão
No momento, o mercado está sensível a possível desidratação do Pacote Fiscal, com o objetivo de promover cortes de gastos governamentais, o que poderá reduzir a aversão ao risco dos investidores. Cabe reforçar que o déficit primário representa 2,4% do PIB e o nominal 9,3% do PIB, aquém das expectativas. Com a tendência verificada para os juros em 2025, manteremos até segunda ordem a menor exposição em renda variável.
Renan Silva
Gestor, CGA
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