Carta do Gestor Agosto 2025

I. Cenário doméstico

No Brasil, afora os problemas estruturais habituais, os setores econômicos afetados pelo
“Tarifaço” norte-americano calculam os impactos e negociam com o governo medidas para
atenuar impacto. O decreto assinado na última semana do mês, pelo presidente Donald
Trump elevou para 50% a alíquota sobre produtos brasileiros. Na contrabalança trouxe uma lista
de exceções que beneficiam segmentos estratégicos como o aeronáutico, o energético e parte
do agronegócio. Não obstante, setores como o de máquinas e equipamentos, de
carnes, cafeeiro, de frutas, moveleiro, têxtil e calçados, entre outros, continuaram
sobretaxados, sendo que alguns deles conseguem redirecionar a produção para outros países,
ou mesmo para o mercado interno, mas isso demanda tempo e redução nos preços finais ao
consumidor, acarretando elevado prejuízo.

No computo, a lista de exceções acabou atenuando o problema, entretanto cerca de 35,9% das
exportações brasileiras aos EUA serão afetadas e, segundo a Câmara Americana de Comércio
para o Brasil – Amcham, serão cerca de 10 mil empresas, as quais empregam 3,2 milhões de
pessoas no Brasil.

A Confederação Nacional da Indústria – CNI emitiu pedidos ao governo brasileiro no sentido de
minimizar osimpactos. Entre eles criar linha de financiamento emergencial do BNDES, com juros
de 1% a 4% a.a., específicas para capital de giro para empresas que tiverem exportações
recorrentes e suas cadeias produtivas, assim como, prorrogar o prazo e a carência para
pagamento de financiamentos ao comércio exterior, como PROEX e BNDES-Exim. Ainda, adiar
por 120 dias, o pagamento de todos os tributos federais, incluindo as contribuições
previdenciárias, e parcelar, em pelo menos seis parcelas mensais e sem incidência de multas e
juros, o pagamento dos valores dos tributos que tiveram o recolhimento adiado.

Conforme verificamos, são medidas anticíclicas que pressionam a arrecadação de impostos e,
consequentemente, distanciam o Governo da meta déficit fiscal de -0,25% do PIB. Nesse
contexto, o melhor caminho é o reestabelecimento do diálogo entre o Governo e a Casa Branca,
mesmo em meio ao acirrado embate político e ideológico. Para o momento não há solução de
curto prazo em razão, primeiro, da política dos EUA de redução da assimetria de tarifas cujos
objetivos são a redução do déficit comercial e a manutenção da hegemonia do Dólar e, segundo,
em razão do posicionamento político brasileiro conjuntamente com seus pares do BRICS.

Segundo economistas do mercado financeiro, a lista de exclusão engloba 42% das exportações
brasileiras para os EUA. Com isso, a projeção para as exportações o ano corrente seria reduzida
em US$ 3,5 bilhões, representando 0,15 ponto percentual no PIB, abaixo da estimativa inicial.

Como consequência, as projeções para 2025, referentes a inflação (IPC-A) reduziram-se para
5,07% (acima da meta de 3,0%) e para a taxa de câmbio (R$/US$) 5,60. A taxa Selic deverá ser
mantida no patamar de 15,0% a.a. Do lado da Conta Corrente verificou-se redução para -US$
60,0 ante -US$ 57,0 (há quatro semanas).

Com a manutenção da taxa Selic é esperada uma menor atividade economia. Segundo o
relatório Focus (Bacen) a projeção do PIB segue em 2,23% e observamos aumento do custo de
crédito e queda nas concessões de empréstimos (PFs e PJs).

No mercado de capitais, a bolsa de valores atingiu valorização em 12 meses de 11,95% (134.700
pts.) ante 14,0% (141.400 pts.) registrados no mês anterior, registrando movimento de retração
com as incertezas relacionadas ao “Tarifaço”. No momento a tendência central é de baixa com
potencial de atingir os 127.500 pts.

Quanto a curva de juros futura, os contratos de DI Futuro na B3 registram a taxa de negociação
de 13,5% a.a., inferior a taxa Selic atual de 15,0% a.a., corroborando com a tese de que o início
do ciclo de queda da taxa de juros deverá ter início a partir de dezembro de 2025.

O Banco Central informou há pouco que o fluxo cambial de julho ficou negativo em US$ 301
milhões, resultado da saída de US$ 9,247 bilhões via conta financeira, enquanto houve entrada
de US$ 8,947 bilhões via conta comercial.

Na semana passada, de 28 de julho a 1º de agosto, o fluxo cambial se manteve positivo, com
entrada de US$ 2,010 bilhões. O fluxo financeiro permaneceu negativo em 1,605 bilhão,
enquanto o fluxo comercial foi positivo em US$ 3,616 bilhões.

Com os dados até 1º de agosto, o fluxo cambial no acumulado deste ano permanece negativo
em US$ 14,224 bilhões, reflexo da saída de US$ 48,781 bilhões pela conta financeira e da entrada
de US$ 34,557 bilhões pela conta comercial.

I. Cenário internacional

Estados Unidos

Segundo dados recentes da atividade econômica, do emprego e da inflação, os agentes de
mercado afirmam que o momento de retomar o ciclo de cortes de juros pode estar se
aproximando, em linha com dirigentes do FED. A previsão é que o FED realize duas reduções
neste ano saindo de 4,25% – 4,5% para 3,75% – 4,0% ao ano.

O relatório de emprego mostrou uma criação de apenas 73 mil empregos em julho, abaixo das
expectativas. Os dados de maio e junho também foram revisados para baixo, mostrando uma
criação de empregos menor do que o inicialmente reportado. A taxa de desemprego subiu para
4,2% em julho.

O dólar estendeu as perdas suas perdas aos R$ 5,46 com desvalorização de 11,66% no ano (base
6/8). Há pouco, o USD/BRL era negociado perto das mínimas do dia frente ao real, sendo que a
moeda americana tem sido pressionada nas últimas sessões pelos dados mais fracos da
economia nos Estados Unidos e a perspectiva de cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed).

No exterior, o índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente uma cesta de outras seis
moedas fortes, caía 0,54%, aos 98,25 pontos.

Zona do Euro

A zona do euro apresentou um crescimento econômico modesto no primeiro trimestre de 2025,
com o PIB avançando 0,6% em comparação com o trimestre anterior, segundo dados revisados
da Eurostat. As exportações e a formação bruta de capital fixo tiveram aumentos significativos,
enquanto o consumo das famílias cresceu mais moderadamente. A inflação ao consumidor
permaneceu estável em 2,0% em julho, ligeiramente acima das expectativas. O comércio
internacional de bens da zona do euro registrou um excedente de 16,2 bilhões de euros em
maio.

O PIB da zona do euro cresceu 0,6% no primeiro trimestre de 2025 em relação ao trimestre
anterior, superando as expectativas dos economistas. Em comparação anual, o crescimento foi
de 1,5% no primeiro trimestre, também acima da estimativa anterior. As exportações tiveram
um aumento de 1,9% no primeiro trimestre, após um período de estabilidade.

A formação bruta de capital fixo aumentou 1,8% no primeiro trimestre. O consumo das famílias
teve um aumento de 0,2% no primeiro trimestre, após um crescimento de 0,5% no trimestre
anterior. A Espanha registrou crescimento de 0,6%, a Alemanha de 0,4%, a Itália de 0,3% e a
França de 0,1% no PIB no primeiro trimestre em relação ao trimestre anterior. O emprego na
zona do euro aumentou 0,2% no primeiro trimestre.

A inflação na zona do euro manteve-se estável em 2,0% em julho, segundo estimativas
preliminares. Esta taxa está ligeiramente acima das expectativas do mercado, que eram de
1,9%. O comércio internacional de bens da zona do euro apresentou um excedente de 16,2
bilhões de euros em maio. Este valor é superior ao excedente de 12,7 bilhões de euros registrado
em maio de 2024. O Indicador de Sentimento Econômico (ESI) mostrou recuperação tanto na
UE quanto na zona do euro em julho. O Indicador de Expectativas de Emprego (EEI) permaneceu
estável em ambas as regiões.

China

A economia da China teve um crescimento de 5,2% no segundo trimestre de 2025, superando
as expectativas do mercado. No entanto, a China enfrenta desafios como desaceleração
econômica, crise imobiliária, desemprego juvenil e menor investimento estrangeiro.

O PIB da China cresceu 5,2% no segundo trimestre de 2025 em relação ao mesmo período do
ano anterior. Essa expansão superou a previsão do mercado, que projetava um crescimento de
5,1%. No primeiro semestre de 2025, o crescimento foi de 5,3% em comparação com o mesmo
período do ano anterior. A economia chinesa tem mostrado sinais de desaceleração, com
quedas na produção industrial e nas vendas no varejo.

A crise imobiliária continua a ser um problema, com queda nas vendas de casas e risco de
colapso para algumas incorporadoras, afetando o setor bancário paralelo. O desemprego entre
os jovens tem sido um desafio significativo, com o governo interrompendo a divulgação dos
dados. O investimento estrangeiro direto na China tem diminuído, com uma medida negativa
pela primeira vez desde 1998. Os governos locais enfrentam dificuldades financeiras, com cortes
em serviços e benefícios para lidar com as dívidas.

Os preços ao consumidor têm se mantido fracos, com risco de deflação. O investimento privado
teve alta de 0,5% no primeiro trimestre em relação ao trimestre anterior. As vendas no varejo
de bens de consumo aumentaram anualmente em 4,7%. O núcleo do IPC (índice de preços ao
consumidor) cresceu 0,7% em termos anuais.

Apesar do crescimento no segundo trimestre, a economia chinesa enfrenta desafios que podem
impactar seu futuro. A China precisa lidar com a desaceleração econômica, a crise imobiliária e
outros problemas para manter seu ritmo de crescimento.

Japão

A economia japonesa está passando por um período de estagnação, com o PIB “flat” no primeiro
trimestre de 2025. A demanda impulsionada pelas exportações foi um fator negativo para o
crescimento nesse período. Apesar disso, o consumo privado e os investimentos apresentaram
crescimento, embora este último tenha sido revisado para baixo. A economia japonesa corre o
risco de entrar em recessão técnica, caso haja mais dois trimestres consecutivos de contração.

O PIB estagnou no primeiro trimestre de 2025, com uma variação de 0% em relação ao trimestre
anterior. O Consumo Privado cresceu 0,1% em relação ao trimestre anterior, mas a demanda
externa teve um impacto negativo, subtraindo 0,8 ponto percentual do PIB. Os
Investimentos cresceram 1,1% no trimestre, mas com revisão para baixo em relação à estimativa
inicial.

A Taxa de Juros básica do Banco do Japão permanece em 0,50%. O Crescimento Anual do
PIB atingiu 1,70% em março de 2025. A Dívida Pública atingiu um nível preocupante, sendo duas
vezes maior que o PIB do país, com um volume de quase 9 trilhões de dólares.

As tarifas impostas pelos EUA podem prejudicar as exportações e os investimentos, impactando
a recuperação econômica do Japão.

O Japão enfrenta o desafio de uma população envelhecida, com uma proporção crescente de
idosos e uma taxa de natalidade baixa, o que afeta a força de trabalho e a capacidade de
sustentar a população idosa. A dívida pública é um fator de preocupação e pode levar a decisões
difíceis no futuro e existe o risco de o Japão entrar em recessão técnica no segundo trimestre
de 2025, caso haja mais dois trimestres consecutivos de contração econômica. A economia
japonesa pode enfrentar um crescimento limitado devido às incertezas comerciais e à lenta
recuperação da demanda interna.

II. Estratégia

Carteira Administrada Brasil

Renda Fixa

A estratégia para o segundo semestre de alocar gradualmente os recursos em papéis prefixados,
na ordem de no máximo 20% do portfólio, foi interrompida momentaneamente em razão das
incertezas quanto aos impactos advindos da Guerra Tarifária. O pacote emergencial do Governo
para proteger exportadores impactados consistem em aumento dos gastos públicos, subsídios
e renúncia fiscal, o que poderá retardar o início do ciclo de corte de juros no Brasil.
Dada a queda na atividade econômica e as projeções para os juros futurosfavorecerem os títulos
pré-fixados, a volatilidade elevada poderá produzir marcações a mercado indesejáveis no curto
prazo. Sendo assim, no decorrer de agosto, seguimos privilegiando os títulos pós- fixados e
indexados à inflação até segunda ordem.

 

Renda Variável

Do lado da carteira de ações aumentamos as proteções as quais encontravam-se na ordem de
20% para o patamar de 40%, devido a conjuntura econômica frente as sanções norte americanas.
Nesse contexto, seguimos monitorando o risco de mercado e gerindo a eficiência
das proteções.

Carteira Administrada Internacional

Renda Fixa

Permanecemos investindo em bonds cuja classificação de risco de crédito seja no mínimo “-
BBB” (investment grade) e com duration de no máximo 5 anos, considerado baixo para os
padrões. As taxas de juros sofreram redução relacionada a perspectiva de o FED reduzir a taxa
básica de juros em setembro em 0,25 b.p. Mantemos alguns bonds de empresas brasileiras de
baixo risco de crédito para minimizar a redução dos rendimentos, mas sem abandonar o
princípio de diversificação do Risco Sistêmico (país).

 

Renda Variável


Com a perspectiva de corte de juros nos EUA o S&P500 segue em tendência de alta favorecendo
nossas alocações. No decorrer de julho investimentos em empresas com P/Ls descontados com
resultados consistentes como a Booking, Uber, Johnson & Johnson e Meta A Bluemetrix Asset segue
monitorando a conjuntura econômica com vistas a otimizar as carteiras e a preservar o capital de
nossos investidores.

 

Atenciosamente,
Renan Silva, CGA
Estrategista

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *