Carta do Gestor Julho 2025

Cenários e perspectivas

I. Cenário doméstico

No Brasil, observamos sinais de desaceleração na atividade econômica, sendo que os dados de abril e maio indicaram um arrefecimento, com as vendas no varejo recuando 0,4% em abril e o setor de serviços avançando apenas 0,2% no mês. A produção industrial também registrou queda de 0,5% em maio. Indicadores antecedentes, como os PMIs de junho, reforçam essa perda de ritmo, ficando abaixo do nível de 50 pontos, que separa expansão de contração. A confiança do consumidor, por sua vez, caiu para 85,9 pontos em junho, refletindo maior cautela das famílias. Apesar desse cenário, o mercado de trabalho demonstrou resiliência, com a taxa de desemprego recuando para 6,2% em maio, embora a criação líquida de vagas formais tenha mostrado moderação em relação ao mês anterior. Nossas projeções, alinhadas às da OCDE e levantamentos de mercado, apontam para uma intensificação do enfraquecimento da atividade no segundo semestre de 2025, com o crescimento anual convergindo para cerca de 2%, impactado pelos juros elevados e pela menor confiança.

A política monetária foi um ponto central em junho, com o Comitê de Política Monetária (Copom) elevando a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, atingindo 15,0% ao ano – o maior patamar desde 2006. Essa decisão unânime foi justificada pela persistência da inflação e das expectativas acima da meta, com o comunicado sinalizando a manutenção da Selic nesse nível por um “período bastante prolongado”. Há uma percepção crescente de que a política monetária está próxima de seu limite contracionista, com expectativas de flexibilização apenas no final de 2025 ou início de 2026. No campo dos preços, observamos algum alívio: o IPCA subiu 0,26% em maio, acumulando 5,32% em 12 meses, e o IPCA-15 de junho avançou 0,26%, com alta acumulada de 5,27% no ano. Os índices de preços ao produtor, como o IGP-M e o IGP-10, mostraram quedas expressivas, impulsionadas pela deflação de commodities.

Em relação à política fiscal e ao setor externo, o cenário fiscal brasileiro permanece pressionado, com a dívida líquida do setor público alcançando 62% do PIB e a dívida bruta em 76,1% em maio. O déficit nominal foi de R$ 125,9 bilhões, e o primário, de R$ 33,7 bilhões, evidenciando a urgência de controle de gastos. Na frente externa, a balança comercial registrou um superávit de US$ 5,89 bilhões em junho, abaixo do mês anterior, refletindo desaceleração nas exportações e elevação nas importações. As transações correntes apresentaram déficit de US$ 2,93 bilhões em maio. Contudo, o Brasil manteve sua atratividade para o capital estrangeiro, com o investimento direto no país somando US$ 3,66 bilhões em maio, volume suficiente para cobrir o déficit em conta corrente e reforçar a confiança dos investidores. A valorização do real, impulsionada pelo diferencial de juros, tem contribuído para conter a inflação importada, embora o ambiente internacional continue desafiador devido a incertezas geopolíticas e comerciais.

II. Cenário internacional

No cenário internacional, os Estados Unidos apresentaram um quadro de expansão moderada. A inflação ao consumidor (CPI) e o núcleo do índice mostraram uma desinflação gradual em maio, com o PCE, medida preferida do FED, subindo 0,1% no mês. A atividade econômica, embora resiliente em alguns setores, mostrou sinais de cautela, com o PMI industrial do ISM em contração e quedas na produção industrial e vendas no varejo. A confiança do consumidor deteriorou-se, e o déficit da balança comercial aumentou. Em contrapartida, o mercado de trabalho segue robusto, com a taxa de desemprego em 4,1% e um alto número de vagas abertas. O Federal Reserve optou por manter a taxa básica de juros entre 4,25% e 4,5%, sinalizando a possibilidade de até dois cortes em 2025, condicionados à consolidação da desinflação. No plano fiscal, os gastos governamentais voltaram a subir, com o déficit orçamentário federal alcançando US$ 316 bilhões em maio, impulsionado por um ambicioso pacote legislativo que prevê cortes de impostos e aumento do teto da dívida.

A Zona do Euro segue em um processo de recuperação lento e instável. A produção industrial recuou 2,4% em abril, e a balança comercial deteriorou-se significativamente. No entanto, os PMIs de junho sinalizaram uma melhora gradual, com o PMI composto subindo para 50,6, indicando uma retomada tímida. A inflação continua favorável ao afrouxamento monetário, com o CPI preliminar de junho convergindo para a meta do BCE em 2,0%. Diante desse cenário, o Banco Central Europeu cortou suas principais taxas de juros em 25 pontos-base, embora tenha expressado preocupações com o impacto do câmbio mais forte sobre as exportações. A taxa de desemprego subiu marginalmente para 6,3% em maio, refletindo a fragilidade do setor industrial.

Na China, a economia se encontra em transição, enfrentando deflação e fragilidade industrial. O CPI de maio recuou 0,2%, resultando em deflação anual de 0,1%, e o IPP caiu 3,3%. O governo tem intensificado o uso de ferramentas de crédito, mas o crescimento do crédito no acumulado de 12 meses atingiu o menor nível histórico, evidenciando a confiança frágil de famílias e empresas. O comércio exterior, contudo, surpreendeu positivamente, com um superávit de US$ 103,2 bilhões em maio, impulsionado pela resiliência das exportações. A produção industrial cresceu 5,8% em maio, um ritmo mais lento, enquanto as vendas no varejo avançaram 6,4%, no maior ritmo desde dezembro de 2023. O investimento estrangeiro direto recuou 13,2%, e o setor imobiliário permanece em ajuste. O Banco Popular da China manteve suas taxas preferenciais de empréstimo, buscando estabilidade monetária enquanto monitora os efeitos dos estímulos.

Por fim, o Japão demonstra uma recuperação gradual, mas ainda marcada por desequilíbrios. O PIB do primeiro trimestre foi revisado para uma variação nula, afastando o risco de recessão técnica. A inflação, no entanto, segue acima da meta do Banco do Japão (BoJ), com o CPI nacional em 3,5% em 12 meses. A atividade industrial permanece instável, mas o PMI industrial do au Jibun Bank ultrapassou a linha de estabilidade pela primeira vez em 13 meses. O setor de serviços continua sendo o principal suporte da economia, com o PMI de serviços avançando para 51,7. O mercado de trabalho mantém-se positivo, com a taxa de desemprego em 2,5%. A balança comercial registrou déficit em maio. O BoJ manteve sua taxa básica em 0,5% e reiterou sua postura de normalização gradual, anunciando a redução do ritmo de retirada de liquidez a partir de abril de 2026, refletindo uma abordagem prudente diante da fragilidade do crescimento e dos riscos externos.

III. Estratégia

Renda Fixa

A estratégia para o segundo semestre de 2025 consiste em alocar gradualmente os recursos oriundos de vencimentos de títulos para a modalidade de papéis prefixados na ordem de no máximo 20% do portfólio, em razão da queda na atividade econômica e das projeções para os juros futuros, registradas nos contratos de DIs Futuros na B3, que indicam para um ciclo de corte de juros a partir do segundo semestre de 2026. Cabe frisar que atualmente as alocações estão concentradas dos papéis pós fixados e indexados ao IPC-a, cujos Cupons ainda são relevantes, justificados pelo ciclo da alta da Taxa Selic (15,0% a.a.).

Renda Variável

Do lado da carteira de ações, mantivemos recursos no caixa na ordem de 20%, tendo como função a realização de lucros sobre ganhos de capital, reflexo da alta do Ibovespa de 14,8% (jan/25 a jun/25) e, ainda, produzindo menor exposição ao risco, devido as incertezas no campo fiscal no Brasil.

Em síntese, o cenário global e doméstico em junho de 2025 é de cautela e ajustes. A desaceleração da atividade econômica no Brasil, a persistência da inflação e os desafios fiscais exigem atenção contínua. No plano internacional, as economias dos Estados Unidos, Zona do Euro, China e Japão navegam por complexidades, com sinais mistos de recuperação, pressões inflacionárias e desafios estruturais.

A Bluemetrix Asset segue monitorando de perto esses desenvolvimentos, buscando as melhores estratégias para proteger e otimizar o capital de nossos investidores.

Atenciosamente,

Renan Silva, CGA
Estrategista

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