Carta do Gestor Junho 2025
Cenários e perspectivas
I. Cenário Global
Estados Unidos: Resiliência em Meio a Tensões
Os dados econômicos dos EUA revelaram uma dualidade interessante. Enquanto os
Índices de Gerentes de Compras (PMIs) da S&P Global indicaram uma aceleração da
atividade econômica agregada, com o PMI Industrial subindo para 52 pontos em maio e
o PMI de Serviços atingindo 53,7 pontos (bem acima da projeção de 52,3), os dados do
Institute for Supply Management (ISM) sinalizaram fraqueza. O PMI Industrial ISM caiu
para 48,5 e o PMI de Serviços do ISM contraiu para 49,9, marcando o primeiro declínio
desde junho do ano anterior.
No mercado de trabalho, o payroll não agrícola criou 139 mil empregos em maio, um
número abaixo das expectativas, e os pedidos iniciais de seguro-desemprego aumentaram
para 247 mil. Contudo, o déficit comercial melhorou expressivamente, caindo para US$
61,6 bilhões em abril, impulsionado pela queda nas importações.
A projeção do PIB do Federal Reserve de Atlanta para o segundo trimestre foi revisada
para baixo, de 4,6% para 3,8%.
A tensão política, com o Presidente Trump pressionando o Federal Reserve por um corte
de um ponto percentual na taxa de juros (que se mantém entre 4,25% e 4,50% desde
dezembro) e a imposição de tarifas de 50% sobre aço e alumínio, adiciona uma camada
de incerteza.
Visão Estratégica: A resiliência do setor de serviços e a melhora no déficit comercial,
apesar das pressões políticas e da desaceleração em alguns indicadores, sugerem que a
economia americana ainda possui fundamentos sólidos. Para nós, isso significa buscar
empresas com forte posicionamento em setores resilientes, capazes de inovar e se adaptar
às mudanças nas políticas comerciais. Nesse contexto é fundamental identificar empresas
que não apenas resistem a choques, mas que àquelas que redefinem os mercados
existentes, independentemente das flutuações macroeconômicas.
Zona do Euro: Recuperação Cautelosa e Flexibilização Monetária
A Zona do Euro demonstrou sinais de recuperação gradual. Os PMIs da S&P Global
vieram acima das expectativas, com o PMI Composto alcançando 50,2, retornando à zona
de expansão pela primeira vez desde meados de 2023.
A inflação permanece sob controle, com o CPI preliminar de maio estável no mês e
acumulando alta de 1,9% em 12 meses, próximo à meta do BCE. O núcleo da inflação
anual ficou em 2,3%. Diante desse cenário, o Banco Central Europeu (BCE) reduziu a
taxa básica de juros de 2,50% para 2,15%, sua primeira flexibilização desde 2022. A taxa
de desemprego manteve-se em 6,2% em abril, o menor nível desde 1998, e o PIB do
primeiro trimestre foi revisado para cima, com crescimento de 0,6% e avanço de 1,5% na
comparação anual.
A decisão do BCE de cortar juros, aliada aos sinais de recuperação da atividade e inflação
controlada, abre novas perspectivas para investimentos na região. Empresas com forte
base de consumo doméstico e aquelas que se beneficiam de um ambiente de custos de
capital mais baixos podem apresentar oportunidades.
Considerando a conjuntura, os setores e empresas que demonstram uma organização
interna robusta para capitalizar essas retomadas serão os mais privilegiados.
China: Desaceleração Industrial e Diálogo Retomado
A China apresentou uma desaceleração na atividade industrial, com o PMI Industrial
Caixin caindo para 48,3 em maio, o nível mais baixo desde setembro de 2022. Os novos
pedidos de exportação registraram a maior contração desde julho de 2023, e a produção
industrial diminuiu pela primeira vez em 19 meses. Em contraste, o PMI de Serviços
Caixin subiu para 51,1, indicando expansão moderada. O PMI Composto Caixin, no
entanto, recuou para 49,6, sinalizando a primeira contração geral desde dezembro de
2022.
Um ponto positivo será a retomada das negociações comerciais com os Estados Unidos,
a partir de 9 de junho em Londres.
A dicotomia entre a fraqueza industrial e a resiliência dos serviços na China exige uma
abordagem seletiva. O foco deve ser em empresas que atendem à demanda doméstica
crescente e que estão bem-posicionadas no segmento de serviços. A retomada do diálogo
comercial, embora cautelosa, pode aliviar tensões e abrir caminho para um ambiente de
negócios mais previsível. Seguimos atentos às empresas chinesas que demonstram
agilidade para se adaptar ao mercado doméstico.
Japão: Atividade Fraca, Confiança do Banco Central
No Japão, o PMI Industrial au Jibun Bank, embora ainda em contração (49,4 em maio),
mostrou a menor taxa de declínio desde dezembro de 2024. O PMI de Serviços caiu para
51,0, indicando uma expansão mais lenta, e o PMI Composto ficou em 50,2, sugerindo
estagnação. A inflação ao consumidor atingiu 4,6% em abril, acima da meta de 2% do
Banco do Japão (BoJ).
Apesar da fragilidade, o presidente do BoJ, Kazuo Ueda, expressou confiança na
resiliência da economia japonesa, citando lucros corporativos robustos e um mercado de
trabalho apertado como amortecedores. O BoJ está preparado para aumentar as taxas de
juros quando houver confiança suficiente na recuperação.
A postura do BoJ, indicando uma eventual normalização da política monetária, pode gerar
oportunidades em setores que se beneficiam de um iene mais forte e de um ambiente de
juros mais altos. A resiliência corporativa e a força do mercado de trabalho são
indicadores-chave. Nossa análise busca empresas que, como as “feitas para vencer” de
Jim Collins, demonstram uma cultura de disciplina e liderança de Nível 5, capazes de
prosperar mesmo em um ambiente de crescimento moderado, focando na excelência
operacional e na inovação contínua.
II. Cenário Doméstico: Desaceleração e Ajustes Estratégicos
No Brasil, os indicadores econômicos sinalizaram uma desaceleração da atividade. As
expectativas para o IPCA de 2025 foram revisadas levemente para baixo, de 5,50% para
5,46%, enquanto a projeção para 2026 se manteve em 4,50%. O PIB de 2025 foi ajustado
marginalmente de 2,14% para 2,13%, e o de 2026 subiu de 1,70% para 1,80%.
Os PMIs da S&P Global apontaram para contração: o PMI Industrial caiu de 50,3 para
49,4 e o PMI de Serviços, embora tenha subido de 48,9 para 49,6, permaneceu abaixo de
50. O PMI Composto recuou para 49,1. A produção física industrial cresceu apenas 0,1%
em abril, e o superávit da balança comercial totalizou US$ 7,24 bilhões em maio, uma
queda de 12,8% em relação ao ano anterior. As exportações recuaram levemente (-0,1%),
enquanto as importações aumentaram 4,7%. O superávit acumulado no ano caiu para US$
24,4 bilhões, uma redução de 30,6% frente ao mesmo período de 2024.
No campo dos preços, o Índice de Preços ao Produtor (IPP) caiu 0,36% em abril,
marcando o terceiro mês seguido de deflação no setor industrial. O IGP-DI recuou 0,85%
em maio.
A desaceleração da atividade econômica brasileira, embora esperada em parte, exige uma
gestão de portfólio ainda mais criteriosa. A queda nos preços ao produtor e a revisão para
baixo das expectativas de inflação podem abrir espaço para futuras flexibilizações
monetárias, o que beneficiaria setores sensíveis a juros.
Em resposta às intensas reações contrárias à elevação do Imposto sobre Operações
Financeiras (IOF), planejada para garantir uma arrecadação extra de R$ 20,5 bilhões em
2024 e R$ 41 bilhões em 2026, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, comunicou no
domingo a implementação de um conjunto de medidas alternativas à alta do IOF.
A decisão governamental, voltada ao reforço da receita e à prevenção de novos bloqueios
orçamentários para 2025, foi recebida com resistência expressiva no Congresso, que
cogitou invalidar o decreto por meio de projeto legislativo específico. Produtores e
membros do Legislativo manifestaram insatisfação decorrente da ausência de diálogo e
do aumento da carga tributária. Entre as alternativas propostas pela Medida Provisória
(MP), incluem-se a imposição de alíquota de 5% sobre Letras de Crédito Imobiliário
(LCI) e do Agronegócio (LCA), a elevação da tributação sobre apostas esportivas de 12%
para 18% do rendimento bruto e a ampliação da Contribuição Social sobre o Lucro
Líquido (CSLL) das instituições financeiras, com substituição da alíquota de 9% por
percentuais de 15% ou 20%.
Apesar dessas iniciativas, ainda não foram divulgadas propostas concretas para a redução
estrutural dos gastos públicos. Ficou acordado, entretanto, que esse tema será debatido
em novas reuniões nas próximas semanas, incluindo a possibilidade de revisar e diminuir
em 10% o montante das atuais isenções fiscais. A expectativa inicial era de que o governo
apresentasse um pacote mais robusto de controle de despesas, algo que não se confirmou
neste primeiro momento.
Do ponto de vista econômico, a opção predominante foi pelo aumento de receitas via
tributação, o que pode gerar efeitos positivos, como no caso da taxação de apostas—
medida que busca também responder à preocupação social com a expansão do jogo e seus
potenciais efeitos nocivos. Por outro lado, a incidência de tributos sobre LCIs e LCAs
impacta instrumentos que historicamente incentivavam o crédito imobiliário e rural.
Em síntese, o conjunto de medidas anunciadas cobre apenas parte da necessidade fiscal
identificada pelo governo, representando cerca de um terço do valor necessário. Assim,
permanece o desafio de promover o ajuste fiscal de modo sustentável, o que exigirá
esforços complementares, seja pela ampliação do ajuste tributário, seja por meio do
efetivo controle e racionalização dos gastos públicos.
III. Estratégia de gestão
Renda Fixa
Permanecemos prestigiando os títulos pós fixados em maior grau, devido aos elevados
prêmios acima da Taxa Selic (14,75% a.a.). Adicionalmente, mantemos uma porção
relevante em títulos indexados à inflação, em razão dos elevados Cupons (DAPs em
stress), somados a pressão inflacionária persistente. Mantivemos a política de investir em
crédito privado indexados à inflação e com securitização de recebeis (garantias robustas).
A estratégia visa diversificar o portfólio entre os títulos públicos, bancários e não bancário,
otimizando o retorno e o risco.
Renda variável
No decorrer do mês, observamos um movimento de exaustão no índice Bovespa aos
140.000 pontos, quando optamos por realizar lucros expressivos por meio da venda das
ações da Copel, Sanepar, Copasa, Bradesco e Ambev, elevando o caixa da Carteira para
30% do portfólio, promovendo menor exposição ao risco após um ciclo de alta do
Ibovespa na ordem 14% (janeiro a maio). Hoje, o índice encontra-se em 135.600 pontos,
em meio as incertezas fiscais.
Carteiras internacionais
Priorizamos empresas com gestão focada em eficácia e resultados, que demonstram
capacidade de inovação contínua em seus processos e produtos. Em tempos de incerteza,
mantivemos disciplina de investir em empresas que apresentem solidez no balanço e a
capacidade de gerar fluxo de caixa consistente como diferenciais. Ademais, os setores
com demanda inelástica ou que oferecem serviços essenciais tendem a ser mais resilientes
e as aplicações concentram-se em líderes de mercado que, mesmo em cenários de
desaceleração, conseguem manter sua fatia de mercado e rentabilidade. A estratégia para
as ações de empresas norte-americanas tem superado o índice S&P500, como
demonstração de resiliência frente a Guerra Tarifária e os embates geopolíticos.
Atenciosamente,
Renan Silva, CGA
Gestor da Bluemetrix


