Março de 2022

1. Conjuntura econômica

Internacional

O destaque fica por conta da guerra entre Rússia e a Ucrânia, sendo que seus efeitos deverão perdurar alguns anos. Entendemos que será um embate de difícil solução, uma vez que a Rússia determinou o limite para o avanço da OTAN. Nos últimos 20 anos, 17 países da antiga União Soviética, componentes do Pacto de Varsóvia, foram aceitos pela OTAN, formando um cinturão em torno da Ucrânia, última fronteira em direção a Rússia. O avanço da OTAN ignorou o acordo de 1991 entre Gorbachev e o secretário de estado norte-americano James Baker, que ressaltava o fim da URSS e a não expansão da OTAN em direção ao leste europeu. Com o fim da URSS o Pacto de Varsóvia foi dissolvido, contudo, mesmo contrariando os especialistas em geopolítica, a OTAN seguiu em expansão até a deflagração do conflito atual.

Na prática, a guerra pressionou os preços das commodities. Os agentes de mercado estimam um acréscimo para a cotação do barril de petróleo em 28% (para US$ 115 no caso do Brent), para os grãos em 15% (trigo +71% para US$ 12/bushel, milho +14% para US$ 7,65/bushel) e para metais em 22% (minério de ferro +22% para US$ 140/tonelada, cobre +3,2% para US$ 9.700/tonelada).

Com isso, a inflação global poderá chegar a 5,4% em 2022 e o crescimento econômico será impactado pela alta de preços de energia e alimentos, além de condições financeiras adversas. O PIB global deverá atingir o crescimento de 3,0% ante 5,0% projetados em jan/22.

Os efeitos do choque serão diferentes em cada região, por exemplo a projeção para crescimento do PIB da Zona do Euro em 2022 de 4,0% para 3,0% e no caso dos EUA, o deverá ser de 3,5% para 3,0%. No caso da China as projeções para o PIB chegaram a 5,3%, entretanto com novas ondas de lockdowns a meta de crescimento estabelecida pelo governo deverá ser revisada.

Não temos dúvidas que o controle inflacionário virá por meio de alta de juros generalizada, em especial EUA, cuja taxa de juros poderá atingir o patamar de 3,5% a.a..

Quanto a América Latina, a distância do conflito atrai temporariamente o fluxo de capital estrangeiro em busca de maiores prêmios nos juros e na bolsa de valores, que captura os resultados advindos da alta de preços das commodities.

Brasil

O destaque ficou para a bolsa de valores com alta de 14,38% até o momento (8/3), atingindo os 118.862 pts., seguido da queda da taxa de câmbio no patamar dos R$ 4,75 (8/3), redução de 16,32%. Esse movimento foi potencializado pela aversão ao risco soberano da Rússia (Brics) e a exclusão dos seus ativos do índice MSCI – Emerging Markets, por parte da instituição Morgan Stanley.

Somado a esses fatores, temos que as contas públicas indicam manutenção da disciplina fiscal (resultado primário, arrecadação, DBSP e DLSP), o que atrai o fluxo de capital estrangeiro. Cabe pontuar que o Brasil oferta, hoje, pelo menos 7,0% de juros reais com base na projeção de inflação para 2022. Em comparação aos EUA, os juros reais são de -4,9% e, mesmo com a perspectiva de elevação dos juros para o patamar de 3,5% a.a., previstos até o final do ano, deve se manter no campo negativo. Ou seja, o Brasil torna-se atrativo na busca por prêmios relevantes.

O destaque negativo ficou por conta do IPC-A de março/22, na casa dos 1,62% ou anualizados 11,3%, o que pode motivar o Bacen a elevar a Selic além dos 12,75% já previstos. Nesse contexto, não enxergamos mudança na conjuntura ou possibilidade de fuga de capitais no curto prazo. Adicionalmente, temos que mensurar o risco político no Brasil, em razão da briga pela sucessão presidencial, que deverá imputar mais volatilidade no mercado.

Do lado dos juros futuros, observamos que os contratos de longo prazo estão apreçados abaixo dos contratos de curto prazo. Essa inversão indica que o ciclo de alta da Selic está perto do fim, fato sinalizado pelo próprio presidente do Bacen, Roberto Campos Neto.

2. Estratégias

Considerando a conjuntura e o cenário base para o Brasil, de pressões inflacionárias adicionais e juros elevados, seguimos com as realocações dos ativos de renda fixa prazo para os títulos de maior duração e prêmios mais elevados, aproveitando a escalada da Selic.

Continuamos com a convicção de que as empresas brasileiras listadas em bolsa de valores apresentam um bom desconto, representando um polo de atratividade em relação às bolsas mundiais. No balanço geral o Brasil ganhou visibilidade por ser um grande player de commodities e por estar distante do conflito na Europa.

2.1. Renda fixa

Mantivemos nossa estratégia de preservação de capital associada a bons retornos, advindos, principalmente, da elevação dos juros. No período da pandemia mantivemos os investimentos em títulos com risco de crédito ínfimo e baixa duração, sendo que a partir de outubro de 2021, passamos a alocar os recursos em títulos com maiores prêmios, essencialmente LTNs (24) e NTNBs (26), entretanto mantendo parcela relevante em LFTs, aproveitando a elevação da Selic e presando pela liquidez.

No campo das emissões privadas, seguimos com os papéis de curto prazo (1 ano a 1 ano e 6 meses), aproveitando o stress nos juros, contudo mantendo a disciplina quanto ao risco de crédito, investindo em ativos com garantia do FGC.

2.2. Renda variável

Com a intensificação do conflito Russia x Ucrânia e as maiores preocupações com a inflação global, permanecemos capturando resultados expressivos oriundos da pressão inflacionária sobre as commodities, entretanto, após três meses de resultados expressivos, iniciamos um processo de redução da exposição em bolsa por meio de operação caixa, como medida de controle do risco de mercado (). As posições de PETR4, VALE3, EQTL3, HYPE3, BBDC4, foram reduzidas marginalmente e o “financeiro” alocado em renda fixa com prêmios mais elevados. Mesmo assim, mantivemos posições relevantes nos setores de petróleo, mineração, energia e proteína.

3. Conclusão

O cenário econômico apresenta stress adicional, devido ao agravamento da Guerra Russia x Ucrânia, às pressões inflacionárias globais e ao novo ciclo de lockdown na China. O Brasil mantém a atratividade, considerando o elevado juro real em relação aos seus pares e, ainda, o desconto de empresas listadas na Bolsa de Valores.

Por fim, a Bluemetrix mantém rigorosamente a disciplina de focar em ativos resilientes de elevada liquidez e bons “upsides”, tanto na renda fixa quanto na renda variável.

 

Renan S. Silva Jr

Gestor, CGA

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